Direitos ao Futuro – Diálogos e Transformações na Educação
Sofia Vilarigues e Lígia Calapez
As relações constroem a aprendizagem. Os ambientes moldam oportunidades. O
cuidado sustenta o desenvolvimento pessoal e escutar as crianças transforma a
escola. Esta a síntese apresentada na conclusão dos trabalhos do evento
“Direitos ao Futuro – Diálogos e Transformações na Educação”. Uma iniciativa
UNICEF que decorreu, no passado dia 7 de maio, na Escola Secundária Padre
António Vieira em Lisboa.
“Acreditamos que é possível fazer diferente”
“Eu gosto de dizer que a democracia não começa aos 18 anos.
A participação é também um ensaio para a sua presença numa sociedade. As coisas
não acontecem por milagre aos 18 anos. As coisas acontecem porque investimos
nelas, porque temos intencionalidade e porque de facto acreditamos que é
possível fazer diferente”, afirmou Beatriz Imperatori, Diretora Executiva da
UNICEF Portugal, na sessão de abertura do evento.
Beatriz Imperatori falou do programa da UNICEF, Escolas pelos Direitos da
Criança, que envolve 296 escolas distribuídas por todo o país. Apontou
resultados significativos: “97% das escolas envolvidas concordam que as
crianças passaram a ter maior conhecimento sobre os seus direitos, 92%
reconhecem que tiveram mais oportunidades para participar ativamente na vida
escolar, 92% consideram que as relações entre adultos e crianças se tornaram
mais positivas e os mesmos identificam melhorias significativas nas
competências sociais e emocionais, como a empatia, a cooperação, a gestão
emocional, e 82% das escolas concordam que as crianças também se sentem mais
seguras nos seus contextos”.
Abordando também o projeto VOAR - Vozes, Oportunidades, Ação, Respeito,
desenvolvido pela UNICEF em parceria com a EduQA, chegando a mais de 4 mil
alunos, referiu que “é um projeto piloto, específico para as escolas TEIP, com
o objetivo de reforçar a participação das crianças, apoiar os profissionais da
educação e criar ambientes escolares mais inclusivos, protetores e sempre
ancorados nos direitos da criança”. E afirmou: “Também nas escolas VOAR,
observamos o maior envolvimento das crianças nas decisões escolares”.
“Quando as crianças participam nas decisões que as afetam, os resultados são
claros, as respostas tornam-se mais eficazes, as soluções mais ajustadas e os
contextos mais justos e inclusivos”, concluiu.
Aceitar a inquietude. Trabalhar em comunidade
“Relações que transformam a escola”, foi o tema da
intervenção de Américo Peças, pedagogo, professor e investigador em estudos da
infância e pedagogia da infância.
“Se queremos um ser livre, a educação tem que se basear na liberdade. Se
queremos um democrata, a escola tem que se organizar na democracia. Se queremos
indivíduos sensíveis e solidários, a escola tem de cultivar a relação. Se
precisamos de cidadãos participativos e críticos, a escola tem de sublinhar o
conhecimento pertinente, como nos ensina Edgar Morin, e em participação
dialógica. Se o mal do mundo é a barbárie a que assistimos todos os dias, a
escola só pode constituir-se em cooperação e fraternidade.”
Este o ponto de partida da reflexão de Américo Peças. Que haveria de
desdobrar-se por múltiplos caminhos. Desde a valorização da escola pública como
um ganho civilizacional, à necessidade de “iluminar a pedagogia com o pulsar
das ciências todas, das culturas, da política”. E alertas, como: “o papel da
escola é fazer de cada criança um ser relevante”, ou “só podemos educar em
comunidade” e “não há aprender fora da criatividade”, o que exige o “encontro
fecundo com a rua, com a cultura, com as pessoas, com os lugares, com o sol,
com a terra”, o “tempo lento, o tempo do vagar”.
O pedagogo deu particular realce aos “grandes desafios éticos que a nossa
contemporaneidade reivindica”, salientando - a democracia e a organização
democrática da vida escolar; o diálogo como condição de conhecimento; a
cooperação como vivência incontornável; a assunção das crianças e dos
adolescentes como cidadãos em potência absoluta. Destacou, ainda, o relatório
da UNESCO 2021, onde se inscreve um novo contrato social para a educação,
fundado nos direitos humanos.
A concluir, Américo Peças sublinhou que “ser educador, ser professora, ser
professor é aceitar a inquietude”. E “iluminar-se-nos a compreensão de que tal
só é possível em comunidade”.
Criar ambientes onde todas as crianças contam e aprendem
“Quando nós entramos na Escola Básica de Paradinha, não há
ciganos, não há negros, não há brancos, não há nem pais ricos, nem pobres. Há
pais preocupados, há crianças que são todas iguais […] A inclusão é
isso”. Paradinha e Ribeira Grande foram os projetos apresentados no
debate em torno de Criar Ambientes Onde Todas As Crianças Contam e Aprendem.
Dois exemplos - muito diversos – de experiências em escolas que apostam de
forma inequívoca na inclusão, inseridas em ambientes sociais particularmente complexos
e diversificados. Duas histórias de confiança e resiliência.
Tal como o exemplo da Escola Básica da Paradinha, apresentado por Andreia
Ribeiro, o projeto implementado na Escola Profissional da Ribeira Grande (Vila
de Rabo de Peixe), de que nos falou Paulo Bulhões, é um testemunho claro de
como a escola pode assumir “um papel de enorme importância”, também ao dar a
possibilidade de “termos alunos diferentes, diferentes culturas, diferentes
formas de estar, pensar e fazer parte do mesmo quadro escolar”.
Na Paradinha, o impulso para a transformação foi dado pelas Mães da Paradinha,
que, em conjunto com os professores, com a comunidade educativa, criaram um
projeto – alicerçado no Movimento da Escola Moderna - MEM, mas adaptado à
realidade concreta da escola – que teve resultados impressionantes. A
assiduidade e o aproveitamento escolar passaram de 30% para 100%.
Com base na pedagogia do MEM – que preconiza a prática de as crianças trazerem
os seus próprios temas para a sala de aula (e uma equipa pedagógica com
formação adequada) – começou-se por temas muito pobres. “Havia uma cultura
geral baixa”. Entretanto, com o desenvolvimento do projeto, que proporcionou
também um alargamento da comunidade escolar às mais diversas crianças,
abriram-se horizontes, e “estas crianças começaram a ter mais cultura, mais
interesse em aprender e a perceber para que é que serve aprender”.
Atualmente, por falta de apoios, a continuidade do projeto pode estar em causa.
Na Escola Profissional da Ribeira Grande, e através do programa Escolas pelos
Direitos das Crianças, “tivemos a possibilidade de desenhar aqui uma formação e
uma aposta educativa”, a partir da ideia de “dar aos alunos a possibilidade de
serem escutados”.
Foi utilizada a metodologia do focus group. “Nós despimo-nos do papel de
professor e somos apenas, no verdadeiro sentido da palavra, mediadores, sem
qualquer juízo de valor, para tentar perceber efetivamente as necessidades”.
Com base nessa prática “definimos as áreas prioritárias de intervenção na nossa
escola”.
A encerrar o debate, Américo Peças considerou que “a pedagogia é
fundamentalmente organização. Uma organização inteligente, a criação de um
ambiente educativo onde todos possam aprender”.
“Não há inclusão se não se tiver uma prática, uma organização diferenciada”,
defendeu.
Na metodologia pedagógica do Movimento da Escola Moderna “a organização é
cooperada, os papéis são diversificados, há cooperação, há planeamento
participado”. Na perspetiva de “pensar e construir a profissão [de professor]
uns com os outros, em pluralidade”. Com uma pergunta sempre presente: “O que
precisamos fazer para que todas as crianças aprendam?”.
Dar voz
No painel Saúde Mental: O Cuidado como Base de Ambientes
Educativos Seguros algumas ideias se destacaram. A importância da prevenção, de
desenvolver competências socioemocionais, de cuidar de quem cuida, do
autocuidado, da participação e ser-se ouvido, de sentir-se seguro e do
sentimento de pertença que aumenta motivação e saúde.
Carla Silva, psicóloga do Agrupamento de Escolas de Briteiros em Guimarães, que
faz parte do programa Escolas pelos Direitos da Criança, salientou que “quando
as crianças e os alunos se sentem seguros e sentem um sentimento de pertença,
isso vai aumentar muito aquilo que é a motivação, o envolvimento e também o
bem-estar e a saúde mental”. Destacou também que “o que nós temos notado é que
quanto mais voz e participação - e aqui o programa da Escolas pelos Direitos
tem-nos ajudado muito, e eles sentem que não só são ouvidos, porque isso sempre
foram, mas que agora as decisões deles e as ideias deles são levadas a conselho
pedagógico e são aprovadas e há mudanças na escola que foram feitas a partir
das ideias deles - maior a motivação e maior o interesse em participar”. De
outras iniciativas da escola, e no âmbito de desenvolver competências socioemocionais,
apontou nomeadamente a Brigada Anti-bullying de alunos, criada no âmbito da
disciplina de oferta complementar, e o Clube Ubuntu.
Cátia Vinagre, assistente social do Agrupamento de Escolas do Fundão, que
também faz parte do programa da UNICEF, considerou que “nós trabalhamos muito
metodologias participativas”, referindo o Escolas pelos Direitos da Criança.
Destacou iniciativas como o projeto Conquistando a Mente! – GETMindPower, cujo
“objetivo é trabalhar a prevenção precoce, trabalhar as competências
socioemocionais dos alunos”, a “terapia assistida por equinos, que é uma
resposta inclusiva da escola” e o “desporto como promotor da saúde mental”.
Chamou ainda a atenção para que “é preciso haver uma aposta também no cuidar de
quem cuida, ou seja, de ter atenção que os profissionais também precisam, e
isto devia ser uma cultura de escola”.
Heloísa Dias, psicóloga e responsável por articular a resposta na área da
promoção da saúde mental e do bem-estar do ecossistema escolar no âmbito do
Programa Nacional da Saúde Escolar da Direção-Geral de Saúde, referiu que a
pandemia “não foi neutra e nós sabemos que tudo o que são as perturbações da
ansiedade galoparam”. Apresentou linhas do Programa da DGS, com “estratégias
universais, que deveriam ser de acesso universal a toda e qualquer criança, e
que se prendem essencialmente com aspetos da política, da governação, da
liderança escolar, da cultura e clima escolar” e “intervenções focadas já em
quem apresenta algum nível de vulnerabilidade”. Valorizou o projeto VOAR e o
Programa Mais Contigo. A finalizar, reforçou a ideia da importância da pertença
e que “competências socioemocionais é algo a desenvolver ao longo da vida”. E
concluiu com “não é uma frase minha, mas eu vou repeti-la aqui, sermos a
diferença daquilo que nós queremos ver no mundo”.
“Nunca desistam dos seus sonhos”
O painel Escutar para Incluir deu voz às crianças e à
prática do projeto VOAR. Com a presença do artista e embaixador do projeto,
Dino D’Santiago, duas crianças do Grupo Consultivo da Escola Básica Alice
Vieira, Gabriel e Sendy, e um professor da Escola envolvido no projeto, Renato
Cunha.
Do que se fala no Grupo Consultivo? “Sobre o que podemos mudar na Escola”,
revelou Sendy.
E como tudo começou na Escola? “Nós começámos com um pequeno grupo”, com o
professor Renato e outro professor, “e fomos continuando fazendo o espaço para
todos entrarem”, contou o Gabriel.
“É um grupo consultivo muito grande, porque a escola tem 14 turmas do 1.º
Ciclo. São dois representantes por turma, portanto é um grupo consultivo de 28
crianças”, afirmou Renato Cunha. “O que, por vezes, é difícil, porque são
muitos meninos. São 4 turmas do primeiro ano, faz logo 8 crianças com 6 anos.
Por vezes temos que ter um cuidado maior para eles perceberem a mensagem que
queremos transmitir. Mas tem corrido muito bem, esperamos continuar.”
“Sinto que vim para o projeto a achar que ia ser o embaixador e que ia apoiar e
dar visibilidade ao projeto, quando de repente me tornei muito mais
introspetivo e muito mais atento”, avaliou Dino D’Santiago. E acrescentou, numa
mensagem às crianças, que “não tenham medo de partilhar com os adultos.
Procurem a ajuda dos professores, dos psicólogos, das assistentes, para dizer
tudo aquilo que dói”.
Do impacto do projeto, Gabriel disse que “o projeto VOAR, ajudou-me a pensar
antes de agir”, e Sendy considerou que os professores “tratam-nos da mesma
forma”, o que é muito positivo.
“O processo de transformação mais notório tem a ver com o despertar da
importância de ouvir a voz da criança”, destacou Renato Cunha. “Acho que o não
é só ouvir, é escutar, saber escutar, parar para escutar, criar momentos para
isso, só assim faz sentido. É sempre importante nós criarmos momentos de
paragem para debatermos os problemas, para percebermos aquilo que podemos
melhorar, escutar as crianças e depois numa fase posterior, envolver também,
não só as crianças, mas toda a comunidade educativa, a comunidade da Escola”.
A concluir Gabriel apelou: “Eu só quero dizer a estas pessoas todas que nunca
desistam dos seus sonhos”. E Dino D’ Santiago, a pedido das crianças, cantou
uma bela canção.
Texto original publicado no Escola/Informação Online | n.º 48, maio - julho de 2026

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