Mãe coragem. Lutadora incansável



Num momento em que se têm vindo a realizar manifestações pelo direito à habitação, relembramos uma história, significativa, retirada de "Quinta do Mocho - Era uma vez um bairro de má fama..."


 Uma das coisas que me prende ao bairro é que eu lutei para vir para este bairro. Lutei muito

Dª Domingas (Domingas Santos), atualmente reformada, é natural de São Tomé e Príncipe (nasceu em Príncipe, como faz questão de sublinhar) e vive em Portugal desde 1984. É mãe de 7 filhos e criou mais 7 enteados. Foi desde sempre um elemento ativo na Quinta do Mocho e uma das pessoas que muito lutou pela reinstalação no bairro atual.

(…)

Havia aquela união, aquela amizade

No bairro velho, “a relação era muito boa. Havia uma união entre todos. Éramos amigos, dávamo-nos bem uns com os outros. Mesmo agora, que podemos viver melhor, mais descansados, há mais problemas de assaltos e assim, do que lá em baixo”.

Essa relação era o esteio que permitia suportar o quotidiano num bairro onde imperava a mais total falta de condições de vida.

Tanto a nível individual como coletivo, esta é uma história de luta pela sobrevivência e pela dignidade.

Num subúrbio feito de edifícios inacabados e de barracas, a questão de ter luz e água colocava-se como uma prioridade. “Eu fiz um requerimento à Câmara, logo que fui ocupar casa na Quinta do Mocho, para que me cedessem luz e água. Porque eu tinha filhos pequenos que estudavam à luz da vela.”

Um processo que esteve longe de ser fácil.

Havia uma fonte. Havia uma torneira onde nós íamos buscar água. Arranjámos tanques, que pusemos à volta daquela torneira, e lavávamos lá. Depois, quando arranjámos mangueira, já ligávamos as mangueiras e levávamos a água para casa, para lavar e para utilizar em casa.

“Entretanto puseram luz – fizeram a baixada. Mas as outras pessoas também queriam luz. E, na Câmara, disseram-lhes que aguardassem, porque não era assim tão fácil. Então eu cedia-lhes luz – eles puxavam-na. Mas os donos do terreno, quando souberam que já havia luz, começaram a reclamar. Reclamaram com a Câmara, que a Câmara tinha de lhes responder porque é que pôs luz. Então foram lá, tiraram-me a luz! Sem mais nem menos.

“Foi nessa altura que nós começámos a ir roubar a luz. Íamos aos postes tirar luz. Juntávamo-nos em grupos, comprávamos muitos rolos de fio e, de noite, lá íamos nós roubar a luz. Cavávamos o terreno. Eram grandes grupos de pessoas. E era a cavar, cavar, estender fios e tapar. Até chegar à nossa zona. E depois distribuíamos os fios – este para aquele lado, aquele para o outro”.

Mas “era uma vida”. Porque “havia aquela união, aquela amizade. Era lutar – um por todos, todos por um!”

 

Nada é a preto e branco

Depois de tanta luta, o realojamento no novo bairro, oficialmente designado Terraços da Ponte, foi sentido com satisfação. Apesar dos problemas que ressaltam da construção das casas.

A construção em si não era da melhor. Porque nós lá [no bairro velho] as construções eram de tijolos. E as pessoas quando vieram para cá, disseram – Oh, mas estas casas não prestam, é de pladur. Mas, aparentemente, as casas têm boas condições. Só que é preciso saber preservar. Há muita coisa que não está bem. Há a humidade – e a humidade dá cabo de tudo. As casas estão todas cheias de humidade. A construção não é boa”.

Apesar desta realidade e dos problemas existentes, Dª Domingas salienta que gosta do bairro.

Uma das coisas que me prende ao bairro é que eu lutei para vir para este bairro. Lutei muito. Participei em reuniões. Ficava muitas vezes horas num prédio – que nós chamávamos o prédio esqueleto, que não tinha paredes, que era todo aberto – para fazer reuniões, para conversar com a população, para tentar arranjar soluções para os problemas que nós tínhamos. Participei em várias reuniões. Em Loures, na Câmara. Na Junta de Freguesia, em Lisboa. Lutei mesmo. Para nós virmos para este bairro. Para termos estas casas. Para termos este abrigo. É um bairro calmo. A não ser uma ou outra vez, que lá eles fazem as suas confusões e brigas. São uns jovenzitos que causam estes distúrbios. De resto é um bairro calmo. As pessoas dão-se bem umas com as outras. Quase todas as etnias dão-se bem umas com as outras. Conversam, falam. Há uma desgraça em casa de uma, logo alguém aparece. Falece qualquer pessoa, nós juntamo-nos, vamos a casa dela a animar. Vivemos assim”.

 


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