Conversas Saudáveis - Os Menores e a Saúde, uma Responsabilidade Partilhada
A Associação de Saúde e
Solidariedade da Diáspora Cabo-verdiana (ASSD-CV),
sediada em Almada, criou, no início deste ano, o projeto “Conversas Saudáveis”,
direcionado para a investigação e formação na área da saúde. Com a preocupação
de fazer pontes entre o processo da imigração e o processo da saúde.
“Todas as conversas têm dado
novas pistas”, foi sublinhado logo no início do encontro em que tivemos a
oportunidade de estar presentes – “Os menores e a saúde, uma responsabilidade
partilhada”, que teve lugar a 29 de junho (o mês em que se comemora o Dia
da Criança, como foi referido), na sede da associação.
Com moderação de Ariela
Delgado (ASSD-CV), foram sucessivamente abordados temas como “A criança e a saúde,
acesso, direitos e deveres em Portugal” (Augusta Trindade, Assistente
Técnica USF Amora Saudável), “Exercício da parentalidade ou proteção da privacidade
do menor?” (Ginga Antão, Assistente Social - CPCJ Lisboa), “Tutores nas
consultas… Sim, não ou nem sempre? Parecer profissional” (Ana Pietro, Jurista,
CPCJ e Armando Brito de Sá, Doutor em Clínica Geral e Medicina Comunitária).
O direito das crianças,
desde que nascem, ao SNS, foi um dos primeiros itens salientados. Sem esquecer os
problemas ligados à realidade da imigração, em particular quando não há uma
situação legalizada e o medo esbarra com um direito instituído. Situações em
que o papel dos enfermeiros, a elucidar os pais, é ainda mais crucial.
O exercício da parentalidade foi considerado numa perspetiva de “responsabilidade partilhada”. Chegam à CPCJ (Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens) “crianças e jovens em fase crítica”. E as situações e respostas estão longe de ser simples. Impõe-se assim trabalhar, não com um “sujeito isolado”, mas imerso numa rede de relações intrapessoais, em que a família é encarada como “um sistema dinâmico, um todo”, e as responsabilidades deverão ser partilhadas – envolvendo famílias, escola, todo o sistema. Sempre numa lógica de defesa dos direitos das crianças.
Tutores nas consultas… ? Um
debate – em que se cruzaram as perspetivas da jurista e do médico – e que
abarca múltiplas dimensões. Desde logo a afirmação da criança como sujeito de
direitos e, em particular, o direito a ser ouvida. Dar mais voz à criança, no
quadro de uma realidade sensível e diversa. Em que, por exemplo, face a diferentes
modelos educativos, se trabalha no difícil equilíbrio entre compreensão, mas
não tolerância. Sem ignorar, naturalmente, o enquadramento legal.
Para o médico, a presença ou
não de progenitores, ou tutores, numa consulta, tem uma história, desencadeada
pelo 25 de Abril, de progressiva autonomia da criança. Passando por experiências
de aconselhamento anónimo, autonomia dos adolescentes (as consultas de
planeamento familiar, no quadro do SNS, abrem a adolescentes), uma política de
manter portas abertas (atitude transversal nas unidades de saúde), o considerar
a articulação entre maturidade e autonomia. Neste quadro, o papel do médico de
família é relevante, pelo acompanhamento sistemático e abrangente que envolve.
Lígia Calapez


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