“A vida faz muito por ela própria nos sítios onde a opressão está”
“Infância e Infâncias:
Diferenças, diversidade e inclusão”. Esta a temática que iria levar Rosa
Madeira, da Universidade de Aveiro, a participar no VII Seminário
Luso-Brasileiro de Educação Infantil e III Congresso Luso-Afro-Brasileiro de
Infâncias e Educação, que tiveram lugar nos dias 30 e 31 de outubro e 01 de
novembro de 2023, na Universidade Federal de Alagoas (Maceió/Alagoas/Brasil).
Para Rosa Madeira, a
temática abordada em Maceió é uma ideia antiga. Fruto da consciência de que “nem
todos os meninos têm acesso à educação de infância”. E da necessidade, sentida,
de “alargar a agenda, deixarmos de falar das nossas coisas e dos nossos modelos
e de olhar para as crianças e para a educação delas com os nossos olhos”.
Um tema nada fácil. Porque “a
diversidade de que nós falamos, estudamos, é sempre do Ocidente e do Norte”. Reconhecemos
que há uma desigualdade, “mas sem a sofrer. Quando a experiência das pessoas é
de quem sofre a desigualdade, sobretudo a precariedade das condições de vida”.
Em Maceió, tudo
começou com uma surpresa.
Houve, naturalmente, toda a
dinâmica normal nos congressos, com conferências, apresentações. Mas, “imediatamente
puseram música, música popular”. E, de repente, “aquelas pessoas, que estavam
para um congresso, levantaram-se e fizeram uma roda gigante”. Com gente de África,
do Brasil, de Portugal. “É antes de falarmos sobre a vida, vivê-la”.
“Essa primeira surpresa foi
extraordinária, porque me pôs com os pés no chão, junto com aquelas pessoas,
num ambiente de festa, de dançar a roda. Era uma ciranda gigantesca. Mas que
foi, ao mesmo tempo, um abraço, um abraço de tolerância, que eu penso que todos
os grupos oprimidos e também os países que estão em posição de subalternidade,
são capazes de nos dar”.
A coisa mais séria é isso, é
a alegria, o brincar
“Quando a gente fala sobre a
infância, sobre as crianças, a partir do Sul, elas estão dentro. Elas são muito
reais e falam em todos os trabalhos”. Essa necessidade de ouvirmos as crianças
que, na Europa, se ensina teoricamente, “isso foi uma coisa que eu vi em todos
os trabalhos. Aquelas pessoas estavam empapadas da experiência de crianças reais”.
Rosa Madeira (Rosinha, como
é conhecida entre amigos), tinha-se preparado para o Congresso com base no
livro Pesquisas com, sobre e para crianças. Onde aparecem “as infâncias
na zona amazônica, de crianças de populações indígenas e que vivem ainda em
contexto comunitário”. No Congresso, “aquelas pessoas que estavam ali a falar,
estavam mesmo a falar daquelas populações. E, nas comunicações, apareciam, ora
como alguém que surge como uma minoria em desvantagem, porque não tem os mesmos
recursos, ora como povos que ensinam, que ensinam a sua filosofia”.
Assim, por exemplo, “o tema
do brincar foi muito, muito falado, mas como contexto de aprendizagem”. Tal
como a afirmação das diferenças culturais. “Um Brasil com uma fé
extraordinária, com uma visão de transcendência extraordinária. Mas com uma
relação com essa transcendência, com a espiritualidade, brincante. Que são os
terreiros, em todo o Brasil”. Em que o que ressalta é “o celebrar a vida”.
Nos terreiros, “quem lidera,
quem é mais ouvido, é uma criança que se acredita que seja o máximo da pureza e
da espiritualidade. E isso faz com que os terreiros, os templos religiosos, com
seus ritos, sejam brincantes. Brinca-se. Anda-se de roda. Por isso é que as
pessoas fizeram a grande roda. Porque a coisa mais séria é isso, é a alegria, o
brincar”.
Uma realidade que se cruza
com como uma parte dolorosa, que é ser-se racializado. O que foi
interessante, foi “nós não estarmos a falar com vítimas. Mas, sim, com vítimas
que já estão em condições de porem isso na nossa agenda, de discutir com a
mesma dignidade do que qualquer um”.
Aquelas pessoas “vivem,
no Brasil, uma matriz que é sua, têm um conjunto de valores que agora andam
exportando para nós, que é o Ubuntu, têm uma religião que festeja a vida, que
celebra a vida e põe as crianças no centro”. E, entretanto, “vivem, são
objeto da maior violência estrutural”. O racismo “não é individual, está
nas estruturas, está em todo o sítio”.
As cidades amigas das
crianças
Existe um movimento, que é a
rede ibérica das cidades das crianças. “Mas o que são as cidades, quando se
fala na participação das crianças nas cidades?”
Muitos dos investigadores
presentes em Maceió “estão nos bairros, nas periferias, nos sítios onde as
crianças são assassinadas. De facto, porque a maioria são negras, porque nas
favelas a maioria da população é negra. Os investigadores tentam estudar os
problemas, com as crianças”. Uma investigação que se cruza com a exigência - “se
habitação é um direito, ocupar é um dever”.
Na América do Sul as pessoas
sem casa constituem uma enorme percentagem da população. Há, assim, no Brasil, um
movimento dos sem casa. As universidades “estão lá dentro, com as
pessoas. E os meninos aparecem como investigadores, como produtores de
conhecimento”.
“São crianças que pintam
paredes, que fazem desenhos, que fazem manifestações, que ajudam a ocupar
grandes edifícios, que o capital compra e que ficam mortos na cidade, sem
habitantes”. Esse movimento, perseguido por Bolsonaro, mas que que agora ganha
também expressão nas universidades - “é pôr os meninos a dizerem como é viver
numa casa, em que eles estão lá hoje, mas não sabem se daqui a um mês moram lá,
nem sabem onde é que vão morar”.
Mas “fazer disso, cirandas,
alegria, desenho, trabalho comunitário - eu acho que é de a gente acreditar
que realmente a vida faz muito por ela própria nos
sítios onde a opressão está”.
A liberdade existe em
qualquer lugar
O lema do Instituto Anne
Frank é que a liberdade existe em
qualquer lugar. “A liberdade como alguma coisa que é inerente às pessoas. E por
isso é que se vê na opressão essa força de vida e de busca de liberdade”.
Rosa Madeira relata uma
história terrível e concreta, que de algum modo ilustra esta ideia. “Eu estive
com uma colega e com a equipa dela que estuda as ocupações, as ocupações das
casas. É uma linha de investigação - sobre como é que isso acontece, quais são
as condições. E ela me convidou para ir visitar um cemitério enorme, no centro
da cidade de Maceió. Não é um cemitério como vocês imaginam. Mas parece um
cemitério”. O que é que aconteceu ali?
“Uma companhia, durante 50
anos, recolheu sal-gema por mineração, em baixo de bairros. De vários bairros
onde viviam 50 mil pessoas. Vocês sabem o que é, de repente, 50 mil pessoas
saberem que estavam em cima do nada, que em qualquer altura o chão ia abaixo? E
isso abateu, claro.” Portanto, o governo foi obrigado a retirar a população
daqueles bairros, “daquela cidade dentro da cidade”. Um escândalo “ecológico,
ambiental, mas também social”.
Na verdade, “aquelas pessoas
ficaram sem casa. Tiveram de sair da sua casa, ver as suas paredes emparedadas
com tijolos. Deixaram as suas vidas ali. Tiveram uns acordos que não dava para
ter em casa em lugar nenhum”.
Mas nem todas as famílias
foram retiradas. Agora, “a empresa, como aquilo deixou de ser um tema quente,
público - que há um certo esquecimento da comunidade - começou a dizer que
aquelas pessoas já não precisam sair. E aquelas pessoas estão em pânico, porque
sabem que não tem chão em baixo e que, em qualquer altura, aquilo vai ruir. E,
sem a indemnização, elas não podem sair dali”.
Mas mesmo nestas condições, a
humanidade afirma-se. “Em todos esses sítios eu vi nas casas com ranhuras, uma
avó a dar a sua cadeira a uma neta para estar no fim da escola na cadeira de
balanço – gestos de ternura, de uma bondade, de uma beleza”.
Portanto, “vimos humanidade
no sítio mais desumanizado que podia ser”.
A liberdade, a humanidade
está entre nós. Ou a história das comunidades
quilombolas
Alagoas foi o lugar onde
apareceu a primeira comunidade quilombola. Que atualmente constitui também uma
linha de pesquisa que as universidades estão a trabalhar.
As comunidades
quilombolas “são comunidades de escravizados, não é de escravos - não se fala
comunidades de escravos, mas de escravizados - as pessoas não são escravas, são
escravizadas”.
Aqui entra a história da
comunidade quilombola de Palmares, que Roda Madeira teve a oportunidade de
visitar. “Uma zona muito remota, uma serra muito alta, que parece uma floresta
inexplorada. Aí existia uma comunidade, que foi incendiada, com 20 mil pessoas
lá dentro, depois de 100 anos de existir.”
A história oficial fala de
“uma luta dos negros contra os colonizadores, que os negros perderam - foram
cercados e foram incendiados”. Mas a história que se conta agora indica que a
origem é uma sociedade matriarcal. Fundada por “uma rainha que foi escravizada,
que foi vendida, que esteve trabalhando numa fazenda. Mas que conseguiu fugir.
E, com ela, outras mulheres com as suas crianças. Fugiram para aquela área, que
é uma área realmente muito remota, muito bonita”. Assim foi criada uma
comunidade que tinha um espaço de educação, tinha uma ordem política, “tinha
tudo, sem ter o modelo, o nosso modelo, o ocidental, tinha a transmissão da
cultura, da história, da língua, da forma de existir”.
Entretanto, na história de
Alagoas houve, a certa altura, “a expulsão de comunidades indígenas que foram
para aquele cantinho do Brasil. E foram essas comunidades que protegeram as
mulheres”.
Portanto, “as comunidades
quilombolas não contam só a história da população negra escravizada. Mas,
também, da solidariedade entre oprimidos”.
Atualmente existem
comunidades quilombolas em todo o Brasil. “Mas essa foi a matriz, foi a
comunidade mãe”.
Estes factos foram contados
a Rosa Madeira por um estudante de antropologia, que voluntariamente faz esse
trabalho, para “não deixar matar a história”. Não da escravatura, não do
genocídio, mas de “até onde a liberdade leva, da liberdade e da solidariedade,
e da diversidade, e do cuidado, e da proteção”.
É uma história “contada a
partir da vida, e não do ressentimento e da morte”.
Lígia Calapez

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