Entre a biologia e a escola, o elo da homeostase
No âmbito dos trabalhos da Cátedra UNESCO – Futuros da Educação, está a decorrer, em sessões animadas por António Nóvoa, um Ciclo extraordinário de conferências, no qual participam alguns dos nomes principais do debate educativo no mundo.
Aqui fica uma breve nota da sessão com António Damásio.
Que nos fala da ligação entre escola e biologia. Da noção de homeostase como “regulação
da vida”. Do objetivo primário da educação como “esse belo ajuste às condições
que permitem ou viabilizam a nossa vida”.
Que relação existe entre educação e biologia, a ciência
da vida? E o que é que a educação tem de específico, de diferenciador?
Para dar resposta a
estas e outras questões, António Damásio parte de alguns princípios de fundo.
Antes do mais, de que “a educação está necessariamente muito
entrelaçada com a vida”. Sendo que, “essa prática genérica que denominamos educação,
consiste justamente em harmonizar um ser humano, um ser, no caso um ser
humano, com outros e com o universo físico”. Ressaltando assim duas componentes:
“harmonizarmos com outros que são semelhantes a nós e harmonizarmos com
o universo físico, que, por sua vez, deu razão de existir a ambos”.
E quais são as condições que nos permitem, que nos forçam a
criar essa harmonia?
A resposta “vem numa única palavra” – homeostase. Que
Damásio define como “o estado em que qualquer indivíduo ou qualquer organismo
precisa estar, de modo a poder adquirir energia para continuar a viver”. Ou
seja, a homeostase “reflete um conjunto, uma série de condições necessárias
para que a vida funcione”.
Este um conceito que se aplica quer a organismos unicelulares,
quer a qualquer organismo multicelular, das plantas aos animais. E,
naturalmente, aos seres humanos. “Ou seja, a noção de
homeostase, a noção de regulação da vida, é crucial para entender para que
serve qualquer tipo de educação”.
Falando de educação, há, entretanto, distinções a fazer. Uma
gradação que Damásio explicita, nos seus diferentes níveis.
Temos os organismos mais simples, que já nascem “com o
processo regulatório de homeostase”. Das bactérias às plantas. E, depois, as
criaturas que têm o dom da consciência (não só os seres humanos), para as quais
a regulação da vida implica um esforço de educação. Através de um processo de
vinculação à cultura que os cerca, como é o caso das criaturas do reino animal.
Ou, para os humanos, um processo educacional mais complexo.
Em qualquer dos casos, o “fator crucial aqui será a consciência”.
Alguns conceitos e definições necessárias
Em termos simples, Damásio define consciência como “o processo de conhecer, saber automática
e espontaneamente que estamos vivos. E que o nosso atual estado de vida é
propício à continuação dessa vida”. Sublinhando ainda que, na sua perspetiva, a
consciência “precedeu os seres humanos e estava já disponível em muitas
espécies que precederam os seres humanos”.
Ainda nesta linha de pensamento, introduz outros conceitos
complexos. Como sentimentos (homeostáticos). “Não passamos a conhecer e
ser conscientes por meio de processos cognitivos mais elevados, mas sim por
meio de sentimentos. Sentimentos do nosso estado de vida, sentimentos sobre o
nosso estado homeostático”.
Uma definição que obriga a traçar claramente a distinção
entre sentimentos e emoções.
“As emoções têm a ver com o movimento. São
orquestrações, que produzem felicidade, alegria, tristeza ou indignação, raiva
e assim por diante”.
Ao passo que sentimentos são “estados mentais que estão
muito estreitamente relacionados ao estado da vida e, portanto, indicam qual é
o estado da vida”. Como: fome, sede,
saciedade, dor, calor, frio, bem-estar, prazer, mal-estar.
Entretanto, à medida que as criaturas humanas evoluíram, “não
só foram dotadas com a possibilidade de verificar o mundo ao seu redor, e as
suas condições de vida, como também evoluíram no que se refere à possibilidade
de comunicar esses estados a outros”.
Formas de comunicação inicialmente muito diretas. E que progrediram, até se conseguir desenvolver “algo que é
relativamente ímpar e singular”: a linguagem, os sistemas linguísticos.
“Várias espécies altamente evoluídas, mas que não são humanas, têm elementos na
sua comunicação que se aproximam de uma organização linguística. Porém, nada
que se assemelhe à linguagem, aos sistemas linguísticos que nós, humanos
conseguimos desenvolver”.
O mundo da educação
Este foi um salto decisivo. “Quando os seres humanos puderam
comunicar e trocar ideias sobre suas condições de vida, por meio do uso da
linguagem, estavam prontos para entrar no mundo da educação.”
Assim, “uma vez presentes essas condições no ser humano, foi
possível desenvolver mecanismos que começaram em moldes muito simples, mas, em
última análise, evoluíram para aquilo que se tornaram depois escolas,
faculdades, universidades. O que, por sua vez, permitiu que os seres humanos
explorassem toda ampla gama de condições que se provariam necessárias para uma
única coisa, a saber: manter a vida, da melhor forma possível. E permitir que a
vida continuasse e que continue de modo eficaz, efetivo”.
Ou seja, “o objetivo primário, o princípio da educação
permanece o mesmo e inalterado. É esse belo ajuste às
condições que permitem ou viabilizam a nossa vida”.
A educação tem um único propósito, sublinha Damásio.
“Assegurar a continuação da vida para as gerações atual e futuras, nas melhores
formas possíveis”.
Há, assim, uma profunda conexão entre neurobiologia e
educação. “A nossa biologia humana exigiu a invenção da educação.”
“Se a homeostase não estivesse ou não tivesse estado
presente nos nossos organismos, jamais teria havido a educação. Jamais teria
havido a necessidade da educação”.
E, “se não tivéssemos desenvolvido a consciência, não teria
havido qualquer necessidade de educação, tampouco. E, se não tivessem surgido
as traduções linguísticas de processos cognitivos, não teria sido possível a
educação”, nas formas que veio a assumir.
Lígia Calapez

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